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A Voz Humana: descobrir e desenvolver a sua voz

  • há 2 dias
  • 6 min de leitura


Exploração da voz humana através do corpo e do movimento
A voz pode ser descoberta através do corpo, do movimento e da relação com o outro.


A voz acompanha-nos desde o primeiro momento da nossa existência. Antes das palavras, já existe o som. O choro de um bebé, o riso, o grito, o suspiro — são formas de comunicação que não dependem de uma linguagem aprendida.

A voz é, nesse sentido, anterior às palavras.

E, no entanto, à medida que crescemos, vamos aprendendo a controlar aquilo que fazemos com ela. Aprendemos a falar de determinada maneira, a cantar de determinada maneira, a baixar a voz ou a projetá-la, a esconder determinadas emoções e, muitas vezes, a adaptar a nossa expressão àquilo que sentimos que é esperado de nós.

Ao longo de mais de duas décadas de trabalho com a voz, fui percebendo que desenvolver a voz não significa apenas aprender a cantar melhor ou a falar melhor. Existe uma dimensão mais profunda: a possibilidade de nos relacionarmos de uma forma mais genuína com aquilo que somos e com a forma como nos expressamos no mundo.

Foi algo que experimentei comigo próprio desde os primeiros tempos em que comecei a explorar a voz.


A voz como caminho para a autenticidade

Uma das primeiras experiências que tive quando comecei a trabalhar profundamente a voz foi sentir que começava a estar de uma forma mais genuína e autêntica comigo próprio.

Não era apenas uma mudança na voz enquanto som.

Era também uma mudança na maneira como me relacionava com os outros.

Comecei a sentir que a minha voz podia ser um reflexo mais verdadeiro daquilo que eu era e daquilo que queria comunicar. Havia uma sensação de maior liberdade e, sobretudo, de maior autenticidade.

Essa experiência pessoal tornou-se uma das bases daquilo que ainda hoje me interessa no trabalho vocal.

Porque, quando trabalhamos a voz, não estamos a trabalhar apenas um instrumento exterior a nós. Estamos a trabalhar algo que está intimamente ligado à nossa presença e à nossa maneira de estar no mundo.


A voz é mais do que técnica vocal

Quando pensamos em técnica vocal, pensamos frequentemente em respiração, apoio, afinação, ressonância, articulação, extensão e projeção.

Todos estes elementos são importantes. Uma boa técnica pode ajudar-nos a utilizar a voz com maior liberdade, eficiência e segurança.

Mas a voz não existe separada da pessoa que a produz.

Uma voz não é apenas um fenómeno acústico. É também corpo, respiração, movimento, imaginação, emoção e relação.

É por isso que, no trabalho vocal, nem sempre o caminho mais direto para uma determinada mudança é simplesmente “corrigir” o som.

Às vezes é necessário escutar.

Escutar o que está presente no corpo. Perceber onde existe tensão. Experimentar uma respiração diferente. Mudar a relação com o espaço. Permitir um som que habitualmente não nos permitimos fazer.

E, sobretudo, desenvolver a capacidade de estar presente enquanto usamos a voz.


Quando a voz desaparece

Uma das experiências profissionais que mais me marcou aconteceu com um cantor profissional que, por determinada circunstância, perdeu quase completamente a voz.

Para alguém que depende da voz profissionalmente, perder a possibilidade de cantar pode ser uma experiência profundamente desestabilizadora. Para ele, naquele momento, parecia praticamente impossível imaginar que poderia voltar a cantar.

A situação tinha também um impacto psicológico muito forte. Estava sem esperança e profundamente abalado pela perda daquilo que fazia parte da sua identidade profissional.

Começámos um trabalho vocal progressivo.

Durante cerca de seis meses, fomos explorando a voz, trabalhando de forma cuidadosa e acompanhando aquilo que ia surgindo.

Progressivamente, a voz foi recuperando.

No final desse período, estava praticamente recuperada.

Mas o que mais me marcou não foi apenas a recuperação da capacidade vocal. Foi observar a transformação da própria pessoa.

A sua autoconfiança e a sua segurança foram sendo reconstruídas. Não apenas enquanto cantor, mas também na sua relação com a vida.

Foi um enorme prazer poder acompanhar esse processo.

Essa experiência reforçou em mim uma convicção que já começava a formar-se: a voz pode ter um impacto muito profundo na maneira como nos sentimos e nos relacionamos connosco próprios.


A descoberta de um novo mundo vocal

A minha relação com o trabalho de Alfred Wolfsohn e com o Roy Hart começou de uma forma que ainda hoje recordo com muita clareza.

Lembro-me da primeira aula que tive no Centro Artístico Roy Hart, com Saule Ryan.

Foi como se, de repente, se abrisse uma porta.

Uma porta para a criatividade, para a minha própria pessoa e para um mundo vocal que até então desconhecia.

A experiência foi profundamente reveladora.

Percebi que a voz podia ser muito mais ampla do que aquilo que habitualmente consideramos ser “cantar”. Podia conter sons, intensidades, texturas e expressões que não cabiam facilmente nas categorias tradicionais de voz cantada ou voz falada.

Foi um contacto que mudou completamente a minha vida.

A investigação de Alfred Wolfsohn, e posteriormente o desenvolvimento do trabalho associado a Roy Hart e ao Roy Hart Theatre, tornaram-se referências fundamentais no meu percurso.

Mais do que uma técnica vocal, encontrei ali uma forma diferente de olhar para a voz humana e para as suas possibilidades.


A exploração vocal como espaço de liberdade, presença e expressão.
A exploração vocal como espaço de liberdade, presença e expressão.


A voz, o corpo e a emoção

A voz acontece através do corpo.

Não podemos separar completamente aquilo que fazemos vocalmente da forma como respiramos, nos movemos ou ocupamos o espaço.

Todos conhecemos a sensação de ficar “sem voz” quando estamos cansados, de sentir a garganta apertada quando estamos nervosos ou de perceber que a voz muda quando estamos profundamente emocionados.

O corpo participa constantemente na voz, mesmo quando não temos consciência disso.

Por essa razão, a exploração vocal pode também ser uma forma de desenvolver uma maior consciência corporal.

Não significa procurar uma determinada emoção ou tentar “forçar” uma expressão.

Significa criar condições para que diferentes possibilidades possam aparecer.

Um som pode tornar-se mais grave, mais agudo, mais áspero, mais suave, mais potente, mais frágil ou completamente diferente daquilo que esperávamos.

E podemos aprender a escutar essas diferenças sem imediatamente classificá-las como bonitas ou feias, certas ou erradas.




No palco, a voz encontra o outro: um espaço de presença, liberdade e comunicação.
No palco, a voz encontra o outro: um espaço de presença, liberdade e comunicação.



Quando a voz encontra o palco

Também a minha experiência como intérprete me ensinou muito sobre esta relação entre voz, presença e autenticidade.

Recordo um concerto em que, por alguma razão, estava particularmente nervoso. Antes de entrar em palco, sentia que poderia não conseguir estar ali de uma forma genuína, com a presença e a liberdade que desejava.

Mas depois subi ao palco.

Comecei a cantar.

E, pouco a pouco, alguma coisa mudou.

Comecei a sentir novamente o prazer de cantar e de comunicar com o público. A tensão inicial foi dando lugar à presença e ao prazer de estar naquele momento.

O concerto acabou por se transformar numa experiência muito positiva.

No final, várias pessoas vieram falar comigo e dar-me os parabéns.

Para mim, esse reconhecimento teve um significado especial. Não apenas pelo concerto em si, mas porque senti que aquilo que tinha trabalhado através da voz estava também presente na minha relação com o palco e com o público.

A voz tinha deixado de ser apenas aquilo que eu produzia.

Era aquilo através do qual eu estava a comunicar.



Encontrar e desenvolver a nossa voz

Fala-se frequentemente em “encontrar a nossa voz”.

Mas talvez não exista uma voz verdadeira escondida dentro de nós à espera de ser descoberta.

Talvez seja mais interessante pensar na voz como algo que podemos desenvolver, ampliar e transformar.

Podemos aumentar o nosso vocabulário vocal. Descobrir novas frequências, novas texturas, novas intensidades. Podemos tornar-nos mais conscientes daquilo que fazemos e, simultaneamente, menos presos à necessidade de controlar cada resultado.

Para um cantor, isso pode significar encontrar maior liberdade e expressividade.

Para um ator, pode significar descobrir novas possibilidades de presença e comunicação.

Para alguém que não tem experiência artística, pode simplesmente significar descobrir uma relação diferente com o próprio corpo e com a capacidade de se expressar.

Não é necessário ter uma “boa voz” para começar.

É precisamente através da exploração da voz que podemos descobrir o que essa voz pode fazer.


A Voz Humana e a exploração vocal

É neste território que se situa o trabalho que desenvolvo em A Voz Humana.

Um espaço de exploração vocal inspirado na investigação de Alfred Wolfsohn e na tradição Roy Hart, onde a voz pode ser investigada para além das categorias habituais de canto e fala.

Trabalhamos com o som, a respiração, o movimento, a improvisação, a escuta e a relação com o espaço e com os outros.

Não se trata de procurar uma voz ideal.

Trata-se de aumentar as possibilidades da voz humana.

Ao longo do trabalho, uma das coisas que mais me interessa é perceber como uma pessoa começa a reconhecer como suas possibilidades que antes pareciam estranhas, impossíveis ou simplesmente inacessíveis.

É aí que a exploração vocal pode tornar-se verdadeiramente transformadora.

A voz deixa de ser apenas um instrumento que utilizamos.

Passa a ser também um lugar de descoberta.

E talvez seja essa uma das características mais fascinantes da voz humana: ela pode revelar possibilidades de nós próprios que ainda não conhecíamos.


Explorar a sua voz

Não é necessário ser cantor ou ator, nem ter experiência anterior.

O trabalho de A Voz Humana destina-se a pessoas interessadas em aprofundar a relação com a própria voz, o corpo e a expressão, através de uma abordagem inspirada na investigação de Alfred Wolfsohn e na tradição Roy Hart.

A voz humana tem muito mais possibilidades do que aquelas que habitualmente utilizamos. A exploração começa quando nos permitimos escutá-las.

 
 
 

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